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O Último Beijo do Sol

Eu já havia me deitado quando ele me chamou. Como vampira, isso significa que era por que o calor da manhã estava chegando e ele, como meu criador, me chamava telepaticamente. Toda criança da noite, mesmo uma de dois séculos como eu, está eternamente conectada ao seu mestre. E nossa ligação era forte, se nos concentrássemos podíamos não só saber os pensamentos um do outro, mas sentir e ver o que o outro sentia e via. E, no ocaso daquela noite, ele me pediu toda minha atenção. Assim, meus sentidos me deixaram e do confinamento e escuridão de meu ataúde me vi livre. Uma brisa sutil acariciava meus cabelos e um leve arrepio de frio tomou meu corpo desnudo, um odor de maresia me invadiu e soube que ele estava na praia. Perguntei-lhe o que fazia e ele disse que queria me devolver algo que havia me furtado há duzentos anos, se desculpou e bloqueou meus pensamentos. A ligação se tornou de mão única e eu passei a mera espectadora. Eu tentei levantar e sair para buscá-lo, mas estava presa em seus sentidos e não conseguia me mexer. Eu só podia receber seu presente e notei seu cansaço. Como se fosse atingida por um bloco de mármore de milhares de toneladas, senti o peso de seus mil anos sobre mim e entendi o que ele estava para me dar. Eu podia vê-lo na escuridão da noite de frente ao mar que tanto amava e suas águas negras que ele sempre desejou fossem azuis. Uma lágrima escorreu de meu rosto e soube que ele presenciava o lusco-fusco, nosso último aviso para nos recolher. Víamos as estrelas desaparecerem, o céu adquirir um tom azul escuro e lá no horizonte um arco alaranjado surgir lentamente, mas as águas ainda eram negras. De repente, um calor irradiou em minha cabeça e eu vi o azul do firmamento, com nuvens oscilando entre o laranja e o vermelho, e lá no limite da visão, um ponto amarelo surgindo e por fim tornando as águas azuis com espuma branca na rebentação. Parecia uma benção para nossos corpos mortos e gelados, mas à medida que o Sol crescia o desconforto aumentava e não tardou até que se tornasse dor, muita dor. Éramos ferroados por milhares de abelhas e ainda era tão belo. Logo, o astro rei surgiu majestoso como eu jamais vira anteriormente. A visão dele me permitia ver detalhes invisíveis aos olhos mortais e via com exatidão o reflexo amarelo no mar de um azul tão intenso como jamais presenciara. O fenômeno só não era mais belo que a dor e sentia nossos corpos ferverem e o sangue dele escorrer em forma de suor e lágrimas. Enfim, he não resistiu e cedeu ao desespero. Da sua mente ensandecida me veio mil anos de história e quase não suportei tanto conhecimento. Já não víamos mais o céu, o mar ou o sol, era apenas calor, dor e por fim o grito. Um urro que veio de todo seu ser, como se cada célula amaldiçoada pedisse ajuda e esse sound durou uma eternidade, até que, de repente, se tornou silêncio e eu voltei para meu caixão, acompanhada apenas da escuridão, da dor e de minhas lágrimas. Meu criador já não estava mais entre nós.

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Sunoki 12/08/2026 21:21

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